texto para a expo Zum Umzug

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Zumzumzum

uma pedra de nascença, entranha a alma.
João Cabral de Melo Neto

Em 1851, desconfiados com o então-chamado “decreto n° 798”, cidadãos livres do Nordeste do Brasil começaram a organizar uma série de motins. O decreto, baixado pouco depois da promulgação da Lei Eusébio de Queirós, implantava o Censo Geral, retirando da Igreja Católica o monopólio sobre os registros de nascimento e de óbito, e passando a tarefa para as mãos do Império. A questão é que a Lei Eusébio de Queirós apenas proibia o tráfico de seres humanos entre África e Brasil, mas não proibia o trabalho escravo no nosso país.

Nessa conjuntura, os trabalhadores em protesto, em sua absoluta maioria brasileiros não-brancos, se perguntavam: ora, se agora não podem mais trazer escravizados África, de onde esses latifundiários vão tirar sua mão-de-obra? E qual a relação entre a proibição do tráfico, e esse tal de Censo Geral? A (acertada) conclusão à qual chegaram era de que os senhores de engenho e coronéis do gado forçariam os descendentes de escravizados, ou de alforriados, ou os alforriados vivos, a substituir a mão-de-obra escrava, escassa pós-lei Eusébio de Queirós. E para identificar quem seriam os candidatos à (re)escravização, provavelmente usariam os dados colhidos pelo Censo Geral pelo Império, com base no decreto n° 798.

Mas esses trabalhadores, que conheciam a escravidão por tê-la vivido na pele, ou por serem descendentes daqueles que sobreviveram a ela, não estavam dispostos a deixar os ricos tomarem as rédeas de suas vidas novamente. Unidos, organizados e em uníssono, trabalhadores e camponeses nordestinos questionavam a arbitrariedade do império, demandando a abolição da escravidão e sua autodeterminação, no movimento que ficou conhecido como Levante dos Marimbondos.

Os revoltosos ficaram famosos no Nordeste imperial pela sua coragem, e pela rapidez com a qual se organizaram, entre o fim de 1851 ao começo de 1852, em pelo menos seis dos nove estados nordestinos, em dezenas de municípios, do Sergipe ao Ceará. Organizadores comunitários (provavelmente egressos da Revolução Praieira, e/ou com acúmulo revolucionário adquirido na vida dos Quilombos) viajavam pelas cidades, elevando a consciência daqueles trabalhadores para os perigos do decreto.

O auê compensou e os marimbondos saíram vitoriosos, pelos menos por um tempo: o decreto foi posto no modo soneca, e o primeiro censo brasileiro só seria realizado 20 anos depois. E porque eram chamados de marimbondos? O nome era uma alusão ao barulho que a multidão de revolucionários fazia, ao entrar nas vilas empunhando suas ferramentas de trabalho (foices, enxadas pedaço de pau e facão), rasgando os editais e se amotinando diante de delegacias, jornais e cartórios. Um zumzumzum da gota serena.

Se em 1851 os agricultores nordestinos lutavam pelo direito de não serem vigiados pelo império, essa luta se estende em 2024 e nem de longe é exclusiva de uma luta do sul global. Ao contrário: os estados capitalistas são mestres em vigiar pra punir. Você sabia, por exemplo, que o que a gente chama de Anmeldung é, na verdade, um polizeiliche Anmeldung? É, amiga, o big brother é real, mas tão desengonçado, tão trambolhudo, tão overwhelmed com a burocracia alemã (“por favor solicite seu Termin via fax”), tão enrolado em racismo e preconceitos de classe, que funciona como se fosse um Monstrengo que perdeu os óculos, passando por cima de tudo e de todos, infernizando a vida nas cidades.

O Monstrengo com hipermetrofia mora no Bürgeramt, no Ausländerbehörde, no Finanzamt e faz da tua vida um inferno. Depois de fazer seu Umzug, se você não fizer o Anmeldung, ele vai atrás de você, mas é também ele que te avisa que não tem Termin para fazer teu Anmeldung, e é por isso mesmo que fará da tua vida inferno – o Monstrengo vai te cobrar multa de mil euros. Dá pra entender porque ele perdeu e não quer encontrar os óculos: dá um dinheirão ser trambolhudo desse jeito.

E o Monstrengo nem pode usar a desculpa esfarrapada de que perdeu os óculos. Angélica Freitas prova muito bem provado que não é a falta deles que produz brutalidade. Ela tira os seus óculos não pra nos importunar, mas para se (nos?) liberar da interpretação – nem sempre faz sentido fazer sentido, e às vezes só se fazendo doido mesmo a gente consegue navegar as arbitrariedades capitalismo.

Eu amo quando Angélica reclama que “fazer sentido é quase que uma imposição”. Porque se a gente olhar de pertinho, muitas vezes as mesmas pessoas que reclamam que arte não faz sentido e não tem função, são as primeiras a abrir mão de lidar de forma crítica com a realidade. A mesma galera que diz que Salvador Dali é doido, acredita que no bafo de quem tomou vacina de covid voam nanoships, que serão aspirados por quem não tomou a vacina. Essa mesma galera, enquanto reclama que poesia é coisa de vagabundo, perde dias e dias analisando quem aplaudiu quem na Berlinale. Te pergunto: o que é mais absurdo? Isso, ou um poema míope de Angélica Freitas?

O que faz menos sentido: os desenhos delicados de Stephanie Fernandes, ou o fato de que, num dos países mais ricos do mundo, os trabalhadores autônomos do setor cultural não sejam protegidos pela Lei do Salário Mínimo, nem pelos termos que regulam o trabalho freelancer? Sim, queridinhos: de acordo com o Serviço Federal de Estatística, 3,1% de todas as pessoas empregadas na Alemanha trabalham no setor cultural – isso quer dizer cerca de 1,3 milhões de pessoas. Destas, 40% são autônomas, ou seja: são quase 500 mil pessoas, na quarta maior economia do mundo, que vivem e trabalham sem que a lei laboral as proteja[1].  Não é isso que é absurdo?

É importante a gente se perguntar não somente porque o Monstrengo é absurdo, mas tentar enxergar bem direitinho seus critérios, e entender por que ele aporrinha uns, enquanto deixa outros em paz. Por exemplo: enquanto a Tesla (cujo dono possui uma fortuna de 190 bilhões de dólares) vai destruindo, em Grünheide, aqui pertinho, mananciais protegidos por lei (Wasserschutzgebiet), gente que não conta sequer com o direito ao salário mínimo é mandada pra cadeia porque não pôde pagar as multas do metrô. Eu acho que isso sim, é muito mais absurdo do que escrever poemas sem óculos: o fato de que 7 mil pessoas por ano são presas na Alemanha porque, pegas 3 vezes sem bilhete, não tiveram condições de pagar uma multa[2]. Como pode alguém achar que quem não tem 3 euros pra pagar no metrô, vai ter mil pra dar em multa?

Na escola de alemão aprendi que viajar sem bilhete se chamava Schwarzfahren. Na militância aprendi que Schwarzfahren é um termo racista, e que mais racista ainda é uma lei que criminaliza a pobreza, (que não devia ser criminalizada[3]). Ora, ora, se pessoas das assim-chamadas “minorias étnicas” são o grupo com maior probabilidade de ser pobre na Alemanha, então só dá para concluir que a maioria das pessoas presas por viajar sem bilhete são de minorias étnicas também. Racismo + classismo = emoji de aperto de mão.

É aí, nesse cruzamento, que mora o critério do Monstrengo aporrinhando uns, enquanto deixa outros em paz. Fazendo um jogo com o conceito marxiano de mais-valia, Mark Fisher chama de “surplus survaillance” a vigilância lucrativa que capitalistas usam, para controlar pobres, racializades, imigrantes. O Monstrengo é, assim, o cão de guarda (e de engorda) do capital. Entre muitas outras formas, toma a da burocracia – era lutando contra esse Monstrengo que os nordestinos faziam seu zumzumzum, em 1851, e é contra o mesmo que se luta na Alemanha, em 2024. Por isso, um viva para iniciativas como a 9-euro-fonds, o Freiheitsfonds, ou a Wir fahren zusammen [4].

Falando em viajar juntos, tanto Stephanie Fernandes quando Valeska Brinkmann se ocupam de observações feitas enquanto usam o transporte público. Enquanto Stepahnie olha para dentro, reparando no que sente enquanto se desloca pela cidade, Valeska olha para fora. Em Bahn Poem, Stephanie usa a malha do metrô berlinense como ponto de partida, construindo um poema contínuo e justaposto, com suas trajetórias na cidade – e as implicâncias emocionais destes deslocamentos que não são, necessariamente, fluidos. Idas, vindas, despedidas, desorientação, espera, tédio, pressa – tudo isso faz parte da experiência da mobilidade urbana, mas também da nossa vida emocional. O trabalho de Stephanie costura esses dois mundos de maneira delicada e acolhedora.

Já em Ringbahn Observatory, Valeska Brinkmannusa poemas como registro de encontros com seus companheiros de trajeto. Poderia ser simples, e é, mas em tempos de fone de ouvido sem fio, carrocracia e individualismo neo-liberal, há algo de extremamente delicado, e encantador, em textos que mostram que alguém presta atenção. Você poderia dizer: que enxerida, dando conta da vida dos outros. Mas atenção e vigilância são coisas absolutamente diferentes. A atenção é a forma mais pura de generosidade, Simone Weil disse uma vez. Quando Valeska nos conta descreve essese encontros, nos mostra do que humanos (e não-humanos!) são capazes quando prestam atenção uns aos outros, quando se investem mutuamente em interação. Esse poema é lindo, e será lindo pra sempre: ele é testemunho do nosso potencial infinito de candor, de entendimento.

Mas o Monstrengo não quer que a gente se entenda: ele não somente criminaliza pobreza, como criminaliza as nossas táticas de sobrevivência e até a solidariedade entre nós (e não é a solidariedade justamente aquilo que acontece quando entendemos uns aos outros?)! Uma pessoa que oferece um Scheinanmeldung pode ser penalizada com até 50 mil euros de multa[5] – porque quis ajudar alguém a ter um Anmeldung. Pode uma coisa dessas?

Ele, o Monstrengo, não quer a gente nem vivo nem morto, ele nos quer zumbis, zumzumzumbis, obedecendo regras que não fazem menor sentido diante da realidade material das pessoas. Zumzumzumbis nas filas do Ausländersbehörde. Na fila virtual do site do Bürgeramt. Na fila dobrando a esquina pra ver o quarto pra subalugar, anunciado no WG-Gesucht: sublet temporário de quarto de 10m2, sem Anmeldung, fora do Ring, kkkaution ilegal de 2 mil euros (que você tem que pagar em kkkash). E você faz kkkara de ku diante do preço do aluguel: 450 euros, kkkalt. E lá vamos nós de novo, zumzumzumbis fazendo grupo de Telegram para pedir aos amigos ajudas para mais um Umzug, o 11° desde que você veio morar em Berlim.

Mas nem todo Umzug é ruim: tem o dos pássaros. Já em fevereiro, as primeiras aves regressam dos seus locais de invernada e salvam a reta final do inverno alemão: voltam o estorninho-malhado e o tordo-músico. Em março, chega a fuinha, o rabirruivo-preto e o e rabirruivo-de-testa-branca; em abril e maio voltam os andorinhões, rouxinóis, papa-figos, cucos e, dessa vez, entra também pra lista o martim-pescador, não voando, que ele não é dessas bandas, mas no trabalho de Ana Hupe, Ultramarine Blue (in progress).

Nenhum desses passarinhos chegariam aqui tão facilmente se tivessem que mostrar visto e passaporte nas divisas entre países, Monstrengo à espreita. A natureza está em movimento, e não existe nada natural em controle de fronteiras. O contrário do zumbi malassombrado da burocracia é o passarinho migratório que, livre, nos dá o ar da sua graça com sua presença temporária. O martim-pescador, em particular, é especial para qualquer conversa sobre liberdade de movimento, pois é presença física e entidade: é ao mesmo tempo passarinho e encantado. Nas macumbas rurais como Catimbó e Jurema, a figura do Marujo Martim Perscador é contra-hegemônica, “um bêbado, negro, marinheiro, […] uma entidade solidária com os socialmente marginalizados e estigmatizados”[6].

O martim-pescador que aparece no trabalho de Ana Hupe é a síntese do Insubordinado: aquele que não se dobra ao capital por pertencer a um grupo e estar em eterno movimento, cruzando inclusive a fronteira entre o mundo material e imaterial, o dos vivos e dos mortos, Orún e Aiê. Não é um Orixá, é uma entidade humana com capacidades semelhantes às que as aves têm, de desmantelar fronteiras, ao mesmo tempo em que conecta territórios que fronteiras deveriam separar. Todos os trabalhos de Ana falam um pouco sobre esses movimentos, inclusive os outros que ela traz para esta exposição.

Não faz muito tempo, o Monstrengo meteu atrás das grades a capitã Carola Rackete, quando ela tentava trazer à terra firme 53 pessoas que seu time resgatou de bote inflável, vagando no mesmo mediterrâneo onde Ana recolheu pedrinhas. Hoje, lá está o mesmo Monstrengo, impedindo que ajuda humanitária chegue em Gaza. Não tem poema que seja capaz de parar esse trambolho – para isso, só organização popular. Mas sem poesia é impossível aguentar o mundo, enquanto lutamos para que ele mude.  


[1] Dados dos Serviços Científicos do Bundestag Alemão, relatório de fevereiro de 2021: “Condições de trabalho e segurança social para artistas na Alemanha”: https://www.bundestag.de/resource/blob/828676/98eb49a74107c6e70329d4dabe174ad9/WD-6-108-20-pdf-data.pdf

[2] “Quatro meses de prisão por danos no valor de 2,90 euros”: https://www.sueddeutsche.de/panorama/schwarzfahren-haftstrafe-ersatzfreiheitsstrafe-gefaengnis-bundestag-1.5943988?reduced=true

[3] Em algumas cidades alemãs, como Colônia e Düsseldorf, não há mais pena de prisão para  viajar sem bilhete: https://www.tagesschau.de/inland/innenpolitik/schwarzfahren-koeln-100.html

[4] O 9 euro fonds é uma espécie de seguro popular, para o qual seus membros pagam 9 euros por mês e têm sua multa ressarcida, caso sejam pegos sem bilhete no transporte público: https://9eurofonds.de/. Já o Freiheitsfonds é um campanha que angaria doações e paga a fiança daqueles que foram presos por viajarem sem bilhete: https://www.freiheitsfonds.de/. A Wir fahren zusammen chama a atenção para as intersecções entre direitos trabalhistas de motoristas de ônibus, mobilidade urbana e justiça climática  https://www.wir-fahren-zusammen.de/

[5] Lei de Registro Federal (BMG), § 54 Regulamentos de multas: https://www.gesetze-im-internet.de/bmg/__54.html

[6] em “Coexistência e co-Agência do Marujo Martim Pescador em uma família de sangue e de santo no Sertão Baiano”, trabalho apresentado por Flávio José dos Passos na 31ª Reunião Brasileira de Antropologia, dezembro de 2018, Brasília/DF.